terça-feira, 23 de agosto de 2011

A dor existe.


E a dor volta a querer passar.
O estômago parece virar do avesso e morder as paredes do meu corpo.  
Sinto os músculos inflamados.
Calafrios persistentes. Abstinência.
Me encolho em posição fetal. Junto as mãos, rezo.
Rezo para que algo aconteça.
Para que me salvem.
Para que a dor não morra, mas que seja substituída por outra. 
Que os calafrios sejam outros.
Que não haja tempo para abstinência
Que não haja espaço para mais um verso.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Dos ausentes e dos contentes.

São essas falas apáticas
Os espelhos, os arranjos de flores plásticas
Essa extrema noção de espaço
Contando a distância milenar, longe dos teus braços.

Uma intravenosa de soro cáustico
Desfilam nos pescoços, suásticas de agouro
Do retalho do pano
Do nosso amor, a lástima.

Compassos genéricos
Méritos que já passei adiante
Ao longe dos que sentem
do máximo, o pouco
Sobra o oco dos contentes
E a saudade daqueles que não foram.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Não me caracterizo como um ser escapo das articulações estéreis do pensar.

Mas me sinto, de fato, liberta em epigramas frágeis, como se

cada palavra acariciasse meus sentidos mais íntimos.

Como se minhas mãos arrancassem do peito força e fraqueza e liberasse num

sulco ácido as inflamações sentimentais.

Arranco de mim o que dói, o que pulsa e irriga as artérias afluentes do

imaginário.

E é nessa fusão que acolho meu ser, que recolho meus pés

e me embalo na cadeira do pensamento.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Buscando erros nos acertos.

Hoje chegarei em casa mais cedo.
Ausentei-me das estradas e o desejo
de calcar uma espada nesse objeto sem nome
se tornou consulente da minha calma.
Fecharei as cortinas e embrulharei o peso desse medo num papel de carta.
E nas palavras, plumas de aves celebrarão o perdão para cada rabisco arrependido.
Volto porque preciso asfixiar o pensamento, que solto,
se emaranha em galhos de árvores pela rua.
Volto porque não quero deixar de voltar sempre.
A presença espirituosa da escolha e a desordem
desmamam meu ego e me apego a tudo o que não sei
se sou, mas vou sedento em busca de explicações
para mais uma vez, não voltar.

Adeus.

A verdade é que eu cansei.

Cansei, cansei.
Danem-se os bons modos.
Pode ir embora ou pode continuar com essa verborreia
asmática ensurdecedora. Pouco me importo.
Foste cedo mas voltaste demasiado tarde.
Gozei do seu esperma de desilusões o suficiente e
hoje meu único prazer é em ver você ir embora,
arrependido.
Já dei adeus àquela vida insalubre na qual você me meteu
e, sinceramente, estou muito bem.
Veja, até o nosso gato, que ficou dias miando desconsolado
quando você foi embora,
hoje foi ríspido e impiedoso com você.
E por que haveria eu de
confrontar essa antipatia dele?
Jamais. Ele é como um filho e você o
abandonou, nos abandonou.
Me admiro pelo entorpecimento com que me olhas.
Não ouse chamar isso de amor, pois quando sentires
isso por ti mesmo, não precisarás fantasiar cenicamente.
Fizeste, por certo, um aborto do teu próprio caráter
e vem até aqui para que eu pulverize o meu.
Lamento, são onze horas da noite e, inevitavelmente, tenho que
despejá-lo da minha sala.
Adeus.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A canção que jamais farei.

Eu tentei te fazer uma canção, mas não.

Não, não. Pra que alguém precisa de uma canção?
Um dia, provavelmente, não estaremos mais juntos
e a canção, que era para você,
acabará sendo um hino de solidão para mim...
Não, sem canções.
Ou imagine então, se esta for tão bela que
aches digna de cantar para outra que venha a me substituir?
Me sentiria traída. Pior do que isso,
me sentiria um palhacinho de circo com bolinha vermelha no nariz e tudo.
Já disse, não farei canção alguma.
Pare com isso, vamos, se quiser te dou aquele sapato que
tanto gostou esses dias mas achou caro. Mas não me
peça canção.
O que? Acha que estou sendo egoísta?
Egoísta é você! Aliás, você tem me decepcionado muito
nos últimos tempos. É, estou cansada de atender a todos
os seus pedidos. E eu? E os meus desejos?
Ora, me deixe sozinha, depois conversamos.
A propósito, onde está aquele disco que gosto de ouvir
quando estou triste? É, estou triste, você me deixou triste. Agora
preciso escutar meu disco e fumar um cigarro. Talvez eu chore, mas acho que não.
O que? Colocou meu disco favorito no lixo?
Não posso acreditar que fez isso!
E ainda queres que eu te faça uma canção?

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Livro de cabeceira

Afasta este medo,  

Respalda o desejo que em ti hei de causar.

Não murmures e não segures o calor que has de exalar.

Ah, este poeta promíscuo de cigarros e traumas... 

Te pega pelo pescoço e te escorre em gostos - salgado e doce.  

Deixa-me te penetrar, te usurpar até que não possas te reconhecer,  

nem tu, nem eu. 

Nem me deixes pensar, que o tempo se perde nas mãos.

E elas em ti querem estar. 

Ó poeta do escárnio, deixa-me te abusar.

Nestas palavras que te fazes,

faça de mim ouvidos pra calar.

Me escreva, me corrija.

Me faça teu livro de cabeceira.

Que assim deixarei que me leia em susurros.

E em mim molhe os dedos para folhear.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Apelo aos surdos

Abster-se do longínquo espaço entre o prolixo parágrafo da justificativa e a paráfrase de palavras injustificáveis. Posto que sois nada além de outrem que também desperta cedo separando-se da família, para assim, ser digno de por ela ser amado. Não me moralize a ponto de expor-me ao cansaço terminal, já que levando-me aos trancos ainda me sugam algum préstimo. Sou daqueles que não esfria, mas deixa-se mofar constantemente. Abro-me estreitamente para não permitir que penetres em meu âmago, embora frequentemente, tenha de acalmar o espírito beira a prantos incessantes. Cansar a própria boca e ouvidos alheios a buscar compreensão para tudo o que já sei e deixo se repetir, se tornou uma fórmula matemática. Mas confesso meus senhores de escapismos salubres, que ao pressentir alvos para novos clamores, por vezes, me calo, me esforço para não dar vazão ao deságüe circunstancial. Mas sou escravo de mim mesmo, sempre buscando apoio para tolices divinas desse meu mundo alheio às pluralidades otimistas. Espero por seu obséquio, por suas mãos a me puxar para a fuga, para seguir em frente com esta loucura que não me cala, mas me mata em gritos abafados.

Distância arquitetônica

E como queres que eu atravesse este muro construído com malha de ferro, inabruptíveis barras que por si só erguiriam um arranha-céu novaiorquino?
Com que ferramentas desejas que eu construa uma ponte, sequer uma pinguela com troncos podres com parasitas do lago?
Com que força esperas que eu entorte as grades pontiagudas e laranjas de ferrugem onde pássaros se esfaquearam e mãos pequenas se sujaram?
Ainda crês que devo escorregar os pés para trás, empurrando com ardor instintivo essa carapaça de vidro com que te envolves o corpo inteiro?
E julgas que seria simples atravessar mares de sais lacrimosos e terras de vermelho febril?
Teimas em pensar que subirei trepidante com garra a torre colossal para que de lá possas me enxergar?
Pois mereça essa espera. Mereça esse calvário de escombros sobre sua cabeça, já que levaste anos a sedimentar tal inércia.
Deixa estar aqui, mais uma luz que se apaga na noite urbana.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Mais sal ou água doce, por favor.

Como eu costumo dizer às vezes "me sinto tão sem sal quanto a comida da vó Leda". Juro que pra almoçar ou jantar lá tem que levar uma saleira junto. But, não é pra falar da comida da minha fofona vó Leda que eu to deixando de fazer meus afazeres do job pra postar aqui. É, deveria ter uma razão motivadora já que quase esqueço o endereço do blog.
Semana passada eu achei que mundo mundo havia caído e que todo mundo tinha percebido... Bá, dessa vez "foi". Água com açúcar pra Erida, um chá de camomila pra acalmar.
Depois que a coisa se acalmou e ninguém mais comentou ou olhou com aquela cara de piedade e "tá tudo bem?" eu senti que nada mudou. Mas abri uma visão periférica do meu coração, em busca de outra explicação para como me sinto. É como se eu tivesse aberto o portão do castelo e me sentisse pequenininha diante de tanta coisa em movimento do lado de fora. De fato, ele não pára. Mas a minha lente parece teimar em assistir ao tempo em câmera lenta. O que acontece é que, quando a câmera aumenta a velocidade parece ser rápido demais pra mim e eu me sinto parada, plantada num terreno baldio, cheia de entulhos velhos e corro contra o tempo feito louca para voltar ao presente. Não que a vida seja fácil e não seja doída, mas "who am I to be blue?".

terça-feira, 21 de julho de 2009

A árvore dos nossos amigos.

Depois de ver a homenagem que um amigo fez em seu blog pelo dia do amigo, pensei que deveria ter um espaço também para registrar momentos com que estes me presenteiam. Aí lembrei de um texto que ganhei de uma colega do colégio, no dia do meu aniversário. O texto se chama "A árvore dos nossos amigos", e me tocou tanto que lembro bem até hoje. Comparava os amigos às folhas de uma árvore e que, a cada estação do ano elas se modificavam pelo tempo. No outono algumas sopravam para longe, umas sumiam para sempre, outras reapareciam na primavera, umas que caíam mas sempre continuavam por perto... E faz muito sentido.
Eu gosto tanto de conhecer a história das pessoas, saber que tem muita gente boa e simples neste mundo. Às vezes uma pessoa que tu conheceu na parada de ônibus e conversou por alguns minutos pode fazer tanta diferença quanto uma que tu conhece há muito tempo e não te ofereceu nada.
Se tu está caminhando no centro de uma cidade grande, por exemplo, e no meio da multidão apressada, tu pára pra atravessar a rua e, do outro lado, alguém pára pra atravessar para o seu lado, vocês se olham, se cruzam e... Cada um para o seu lado, seguindo em frente. Daqui a pouco, por intuição, tu olha pra trás e sente uma coisa estranha, uma sensação boa, de "parece que eu conheço esse cara de algum lugar". E o cara também olha pra trás, e tu disfarça e vira rápido. A gente fica procurando encontrar motivos às vezes. Mas na verdade, queria dizer "puta, que massa que esse cara existe". Pronto. Não tem muita lógica. (Aliás, mania chata e inútil essa de as pessoas ficarem procurando lógica em tudo.) Empatia.
Tem tanta gente extremamente necessária para conhecermos que ocupamos nosso tempo com tanta bobagem que ele passa e não nos dá outra chance. Fica só no olhar e sentir "que bom que você existe".
Mas já que o tempo me deu a chance de conhecer tu, que está lendo essa coisa toda que eu tô escrevendo, é porque posso não apenas pensar, mas dizer diretamente: que bom que vocês, meus amigos, existem.
Feliz dia do amigo!