sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Não me caracterizo como um ser escapo das articulações estéreis do pensar.

Mas me sinto, de fato, liberta em epigramas frágeis, como se

cada palavra acariciasse meus sentidos mais íntimos.

Como se minhas mãos arrancassem do peito força e fraqueza e liberasse num

sulco ácido as inflamações sentimentais.

Arranco de mim o que dói, o que pulsa e irriga as artérias afluentes do

imaginário.

E é nessa fusão que acolho meu ser, que recolho meus pés

e me embalo na cadeira do pensamento.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Buscando erros nos acertos.

Hoje chegarei em casa mais cedo.
Ausentei-me das estradas e o desejo
de calcar uma espada nesse objeto sem nome
se tornou consulente da minha calma.
Fecharei as cortinas e embrulharei o peso desse medo num papel de carta.
E nas palavras, plumas de aves celebrarão o perdão para cada rabisco arrependido.
Volto porque preciso asfixiar o pensamento, que solto,
se emaranha em galhos de árvores pela rua.
Volto porque não quero deixar de voltar sempre.
A presença espirituosa da escolha e a desordem
desmamam meu ego e me apego a tudo o que não sei
se sou, mas vou sedento em busca de explicações
para mais uma vez, não voltar.

Adeus.

A verdade é que eu cansei.

Cansei, cansei.
Danem-se os bons modos.
Pode ir embora ou pode continuar com essa verborreia
asmática ensurdecedora. Pouco me importo.
Foste cedo mas voltaste demasiado tarde.
Gozei do seu esperma de desilusões o suficiente e
hoje meu único prazer é em ver você ir embora,
arrependido.
Já dei adeus àquela vida insalubre na qual você me meteu
e, sinceramente, estou muito bem.
Veja, até o nosso gato, que ficou dias miando desconsolado
quando você foi embora,
hoje foi ríspido e impiedoso com você.
E por que haveria eu de
confrontar essa antipatia dele?
Jamais. Ele é como um filho e você o
abandonou, nos abandonou.
Me admiro pelo entorpecimento com que me olhas.
Não ouse chamar isso de amor, pois quando sentires
isso por ti mesmo, não precisarás fantasiar cenicamente.
Fizeste, por certo, um aborto do teu próprio caráter
e vem até aqui para que eu pulverize o meu.
Lamento, são onze horas da noite e, inevitavelmente, tenho que
despejá-lo da minha sala.
Adeus.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A canção que jamais farei.

Eu tentei te fazer uma canção, mas não.

Não, não. Pra que alguém precisa de uma canção?
Um dia, provavelmente, não estaremos mais juntos
e a canção, que era para você,
acabará sendo um hino de solidão para mim...
Não, sem canções.
Ou imagine então, se esta for tão bela que
aches digna de cantar para outra que venha a me substituir?
Me sentiria traída. Pior do que isso,
me sentiria um palhacinho de circo com bolinha vermelha no nariz e tudo.
Já disse, não farei canção alguma.
Pare com isso, vamos, se quiser te dou aquele sapato que
tanto gostou esses dias mas achou caro. Mas não me
peça canção.
O que? Acha que estou sendo egoísta?
Egoísta é você! Aliás, você tem me decepcionado muito
nos últimos tempos. É, estou cansada de atender a todos
os seus pedidos. E eu? E os meus desejos?
Ora, me deixe sozinha, depois conversamos.
A propósito, onde está aquele disco que gosto de ouvir
quando estou triste? É, estou triste, você me deixou triste. Agora
preciso escutar meu disco e fumar um cigarro. Talvez eu chore, mas acho que não.
O que? Colocou meu disco favorito no lixo?
Não posso acreditar que fez isso!
E ainda queres que eu te faça uma canção?

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Livro de cabeceira

Afasta este medo,  

Respalda o desejo que em ti hei de causar.

Não murmures e não segures o calor que has de exalar.

Ah, este poeta promíscuo de cigarros e traumas... 

Te pega pelo pescoço e te escorre em gostos - salgado e doce.  

Deixa-me te penetrar, te usurpar até que não possas te reconhecer,  

nem tu, nem eu. 

Nem me deixes pensar, que o tempo se perde nas mãos.

E elas em ti querem estar. 

Ó poeta do escárnio, deixa-me te abusar.

Nestas palavras que te fazes,

faça de mim ouvidos pra calar.

Me escreva, me corrija.

Me faça teu livro de cabeceira.

Que assim deixarei que me leia em susurros.

E em mim molhe os dedos para folhear.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Apelo aos surdos

Abster-se do longínquo espaço entre o prolixo parágrafo da justificativa e a paráfrase de palavras injustificáveis.
Posto que sois nada além de outrem que também desperta cedo separando-se da família, para assim, ser digno de por ela ser amado.
Não me moralize a ponto de expor-me ao cansaço terminal, já que levando-me aos trancos ainda me sugam algum préstimo.
Sou daqueles que não esfria, mas deixa-se mofar constantemente.
Abro-me estreitamente para não permitir que penetres em minha esfinge, embora frequentemente, tenha de acalmar o espírito beira a prantos incessantes.
Cansar a própria boca e ouvidos alheios a buscar compreensão para tudo o que já sei e deixo se repetir, se tornou uma fórmula matemática. Mas confesso meus senhores de escapismos relevantes, que ao pressentir alvos para novos clamores, por vezes, me calo, me esforço para não dar vazão ao deságüe circunstancial. Mas sou escravo de mim mesmo, sempre buscando apoio para tolices divinas desse meu mundo alheio às pluralidades otimistas. Espero por seu obséquio, por suas mãos a me puxar para a fuga, para seguir em frente com esta loucura que não me cala, mas me mata em gritos abafados.

Distância arquitetônica

E como queres que eu atravesse este muro construído com malha de ferro, inabruptíveis barras que por si só erguiriam um arranha-céu novaiorquino?
Com que ferramentas desejas que eu construa uma ponte, sequer uma pinguela com troncos podres com parasitas do lago?
Com que força esperas que eu entorte as grades pontiagudas e laranjas de ferrugem onde pássaros se esfaquearam e mãos pequenas se sujaram?
Ainda crês que devo escorregar os pés para trás, empurrando com ardor instintivo essa carapaça de vidro com que te envolves o corpo inteiro?
E julgas que seria simples atravessar mares de sais lacrimosos e terras de vermelho febril?
Teimas em pensar que subirei trepidante com garra a torre colossal para que de lá possas me enxergar?
Pois mereça essa espera. Mereça esse calvário de escombros sobre sua cabeça, já que levaste anos a sedimentar tal inércia.
Deixa estar aqui, mais uma luz que se apaga na noite urbana.